Relatório revela que se gasta mais dinheiro contra a natureza do que a protegê-la

O relatório "Estado das Finanças para a Natureza 2026", do Programa das Nações Unidas para o Ambiente  revela que os  investimentos prejudiciais são 30 vezes superiores aos que protegem a natureza. Em 2023, foram gastos 7,3 biliões de dólares em investimentos prejudiciais para o ambiente.

 
Agência Lusa
Agência Lusa
22 jan. 2026, 14:52

Por cada dólar investido na proteção da natureza, são gastos 30 dólares na sua destruição, concluiu um relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) divulgado esta quinta-feira, que alerta para este enorme desequilíbrio.

O relatório "Estado das Finanças para a Natureza 2026", que utiliza dados de 2023, pede assim uma mudança radical no financiamento global das designadas “soluções baseadas na natureza” (SbN) e a eliminação gradual de investimentos prejudiciais.

A União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) define as SbN como ações para enfrentar os desafios socioambientais através da proteção, gestão sustentável e restauração dos ecossistemas.

"Embora o financiamento para soluções baseadas na natureza esteja a progredir lentamente, os investimentos e subsídios prejudiciais continuam a aumentar. Este relatório oferece aos decisores um roteiro claro para inverter esta tendência e trabalhar com a natureza em vez de contra ela", disse a diretora executiva do UNEP, Inger Andersen, num comunicado citado pela agência noticiosa espanhola EFE.

Segundo o estudo, em 2023, foram gastos a nível mundial 7,3 biliões de dólares (6,2 biliões de euros) em investimentos prejudiciais para o ambiente, enquanto as "soluções baseadas na natureza" receberam apenas 220 mil milhões de dólares (187 mil milhões de euros).

Os fluxos de capital negativos incluem 4,9 biliões de dólares (4,1 biliões de euros) de investimentos privados em setores como os serviços, a indústria, a energia e as matérias-primas de base, mas também 2,4 biliões de dólares (2,05 biliões de euros) de "subsídios (públicos)" em áreas como os combustíveis fósseis, a agricultura e o uso da água.

"Estes fluxos prejudicam o progresso ao nível do clima, da biodiversidade e da restauração da natureza. Reformar e redirecionar este capital é uma poderosa alavanca para a mudança", sublinha o relatório.

No caso dos investimentos em defesa da natureza, 90% são de fundos públicos, mas o UNEP considera que "existe potencial para um aumento significativo (do investimento privado em ‘soluções baseadas na natureza’) com os incentivos económicos adequados".

E o estudo indica várias áreas com potencial para o setor privado, como a agricultura regenerativa, a silvicultura sustentável, a restauração de ecossistemas, a biodiversidade e os créditos de carbono, os títulos ligados à natureza e as cadeias de abastecimento certificadas.

Assinalando que, “além da proteção e da restauração, existem oportunidades relacionadas com a natureza em todos os setores da economia, incluindo a alimentação, a construção, os serviços públicos, a indústria extrativa, a moda e muitos outros", a agência da ONU salienta que as soluções são normalmente mais eficazes quando estão alinhadas com a liderança das populações locais e com os contextos sociais, culturais e ecológicos de cada local.

O aumento da vegetação nas áreas urbanas para aliviar o calor, a integração da natureza nas infraestruturas rodoviárias e energéticas (por exemplo, com a instalação de parques solares em áreas naturais) e a troca de dívida por natureza são algumas das iniciativas em curso mencionadas no relatório, segundo a EFE.

O relatório refere que os investimentos positivos deverão aumentar 2,5 vezes, atingindo anualmente 571 mil milhões de dólares (487,4 mil milhões de euros) até 2030, para cumprir as metas estabelecidas em tratados como a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) e a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).