Novo projeto alia conservação da natureza ao desenvolvimento regional da Serra da Estrela

A iniciativa prevê o controlo de espécies invasoras, o restauro de pontos de água e a criação de habitats para fauna, reforçando serviços como a captação e filtração de água numa região afetada pelas alterações climáticas.
Agência Lusa
Agência Lusa
16 jan. 2026, 20:22

Vista panorâmica da Serra da Estrela

O Projeto SerE+ quer criar micro reservas de biodiversidade na Serra da Estrela, através de ações de restauro ambiental, para potenciar os serviços dos ecossistemas e a resiliência da região.

“O SerE+ representa a oportunidade inequívoca de colocar finalmente a conservação da natureza ao lado do progresso e do desenvolvimento regional da Serra da Estrela, com base em princípios de sustentabilidade”, disse à agência Lusa o coordenador do projeto, Pedro Horta. 

Coordenada pela Palombar, uma Organização Não Governamental (ONG) de ambiente, a iniciativa é promovida por um consórcio formado pelo CE3C (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais), da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e pelo município de Seia, através do Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE), e pela espanhola Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), através da Estação Biológica de Doñana.

O SerE+ vai arrancar com um projeto-piloto, a decorrer até 2028, numa propriedade da Câmara de Seia (distrito da Guarda), no lugar da Senhora do Desterro, e os resultados serão aplicados nos municípios de Celorico da Beira, Covilhã, Gouveia, Guarda e Manteigas, que também integram o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE).

“O projeto vai criar todas as bases necessárias cartográficas e depois técnicas, do ponto de vista do restauro, para que possa ser replicado ao fim destes três anos nestes seis municípios”, explicou o responsável.

Serão realizadas ações que permitam “potenciar os serviços dos ecossistemas, como o controlo de espécies lenhosas invasoras, a construção de escadas de peixe no rio Alva, a colocação de caixas de abrigo e caixas de refúgio para morcegos e aves”.

A instalação de insetários, a abertura e limpeza de matos, a abertura de clareiras, a criação de pastagens e sementeiras de centeio e o restauro de pontos de água são outros trabalhos previstos.             

Segundo o investigador da Palombar, vai ser desenvolvida uma cartografia de priorização das áreas mais relevantes para a conservação da natureza nos seis municípios abrangidos.

Já o mapeamento dos serviços dos ecossistemas será elaborado numa segunda fase com os contributos das populações.

“Basicamente, vamos desenvolver oficinas colaborativas com os agricultores, pastores, associações florestais, municípios, PNSE, associações de conservação da natureza, entre outros atores locais relevantes, que nos vão ajudar a identificar os serviços por diferentes classes dos solos”, indicou o coordenador do projeto.

O ponto de partida deste projeto são os impactos dos grandes incêndios dos últimos anos, mas também as alterações climáticas, acrescentou.

“A redução significativa da neve no planalto superior é um impacto muito importante nos serviços de ecossistemas, nomeadamente na captação e filtração de água, um serviço que a Serra presta a quase quatro milhões de portugueses, através do abastecimento na bacia hidrográfica do Mondego e na sub-bacia do Zêzere”, exemplificou.

O turismo de massas, a desertificação do território, o envelhecimento da população serrana e o êxodo rural são outros problemas identificados.

“A perda de conhecimento e de práticas ancestrais para a silvo pastorícia tem mudado a paisagem da Serra da Estrela. O que era um mosaico passou a ser muito mais uniforme, pelo que é preciso criar algumas descontinuidades, fazer ações de restauro para salvaguardar as zonas mais importantes”.

Pedro Horta sublinhou ainda que a conservação destes locais “vai valorizar também a qualidade de vida das populações e a economia local”.

“Os territórios têm um valor intrínseco, mas também um valor instrumental para os habitantes. Pode não ser financeiro, mas é económico e é o valor dos serviços, dos ecossistemas, que se prestam de forma gratuita às populações locais, aos turistas e às atividades económicas”, defendeu.

O projeto é financiado em 200 mil euros pela Fundação La Caixa/BPI e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).