Algarve: barragens fazem descargas preventivas, mas região não se pode “encostar a esta bênção”

Duas barragens em Castro Marim fazem descargas preventivas esta semana. A autarca do concelho assinala o momento importante para a região, mas deixa um alerta.


 
Rui Mendes Morais
Rui Mendes Morais Jornalista
30 dez. 2025, 12:30

Imagem de barragem no Algarve
Fotografia: Autoridades alertam para descargas nas barragens em Castro Marim

Depois de anos marcados pela seca, o cenário mudou no Algarve e a abundância de água obriga agora à abertura das comportas nas barragens de Beliche e Odeleite. São descargas preventivas para garantir a segurança e o equilíbrio ambiental no concelho, que levaram as autoridades locais a emitirem alertas à população. 

As descargas surgem depois de as recentes chuvas na região terem elevado os níveis das barragens. A presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, Filomena Pascoal Sintra, explica, em entrevista ao Conta Lá, que “mal soubemos que tinha havido um grande encaixe nas barragens devido às chuvas do fim de semana, fizemos logo um aviso à população com essa eventualidade”.

As descargas estão previstas para esta semana: a primeira acontecerá na Barragem do Beliche já nesta terça-feira, às 14h00, na sexta-feira, 2 de janeiro, está também prevista a abertura das comportas da Barragem de Odeleite, às 10h00. 

“Não é que a barragem esteja já demasiado cheia, mas como há previsão de chuvas para a próxima semana estas serão descargas preventivas”, revela a presidente do concelho algarvio. 

O município já apelou à adoção de medidas preventivas, devido à operação que pode “originar um aumento significativo do volume de água nas ribeiras e no Rio Guadiana”: as pessoas devem evitar a circulação ou permanência em zonas potencialmente inundáveis e não se devem aproximar das margens das ribeiras e do rio durante o período das descargas.

Filomena Pascoal Sintra refere ao Conta Lá que “à partida as descargas não se irão traduzir em prejuízos”. 

A Barragem de Odeleite é a mais importante do sotavento (leste) algarvio, sendo a do Beliche situada a jusante daquela, no mesmo concelho do distrito de Faro. As duas barragens encontram-se, respetivamente, com 83% (Odeleite) e 75% (Beliche) da sua capacidade, segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) referentes a 22 de dezembro.

Para além da gestão hídrica, estas descargas assumem um papel vital na regeneração ambiental. A autarca destaca que este é um momento importante para o equilíbrio ecológico, permitindo a limpeza dos leitos das ribeiras e a remoção de sedimentos acumulados durante os longos períodos de escassez. 

Depois de um período de seca de 10 anos na região, que levou o Governo a decretar situação de alerta no Algarve, este é um momento importante para a região. “O planeta está a dar-nos o tempo e as condições naturais para que possamos descansar naquilo que é o consumo anual da água”, vinca a presidente da Câmara, alertando, contudo, que a região não se pode “encostar a esta bênção”. 

A autarca lembra que, apesar da abundância atual, o consumo elevado de água do Algarve pode levar as reservas a níveis críticos em apenas dois anos, caso não volte a chover, tornando imperativos os investimentos para os futuros ciclos de seca. Recordando que a economia do Algarve seria sacrificada sem as barragens, Filomena Pascoal Sintra aproveita o momento para defender a construção da Barragem da Foupana.  

No início do mês de dezembro, o presidente da APA, José Pimenta Machado, informava que as barragens do Algarve garantiam um consumo urbano para três a quatro anos, mesmo em “anos muito maus”, explicou à Agência Lusa. 

Nessa altura, o representante sublinhou também a necessidade de uma utilização cautelosa e eficiente da água: “Alguns setores dizem que já passou a seca, mas não passou nada. É uma situação conjuntural, agora tivemos sorte, mas temos que nos preparar para os anos que vêm aí”. 

José Pimenta Machado destacou a recuperação significativa dos níveis de água nas albufeiras do Algarve, sublinhado o caso da Barragem do Funcho, situada no Barlavento Algarvio, uma das mais afetadas pela seca, que chegou aos 80% da capacidade máxima, tendo de realizar descargas preventivas, depois da grande precipitação associada à tempestade Cláudia.

“Em média, passámos de 67% para 72% no conjunto das seis albufeiras”, referiu o presidente da APA, sublinhando o impacto positivo da tempestade na reposição dos recursos hídricos, que levou a uma recuperação de cerca de 5% no volume global de água armazenada.