Bordado de Castelo Branco faz sucesso a vestir figuras de presépio
Aprendeu a bordar aos 12 anos, mas a vida encaminhou-a para outros destinos. Depois de o pronto-a-vestir onde trabalhava no Fundão fechar, em 1999, Madalena Novo dedicou-se ao bordado de Castelo Branco, e, com o tempo, o passatempo tornou-se a sua atividade profissional.
No bordado de Castelo Branco, com regras rígidas, “não se inventa” e a fundanense cumpre os “motivos rigorosos”. Há cerca de uma década, o acaso levou-a a inovar.
Madalena Novo conta que comprou em Manteigas um tecido em burel para mandar fazer um casaco, mas tardou a dar seguimento à intenção. Um dia, pensou em utilizar esse tecido grosso em lã para testar fazer presépios onde aplicasse os bordados que aperfeiçoou com as décadas de prática, como já fazia com os de linho.
“Tive receio de entrar com o burel, mas foi muito bem aceite e tornou-se o que é mais procurado”, transmite, ao Conta Lá, Madalena Novo, que por estes dias se encontra no Mercado de Natal do Fundão.
Aos 73 anos, é uma das quatro particulares certificadas a vender bordados de Castelo Branco. Faz painéis de todos os tamanhos e feitios. Surpreendeu-a que a utilização alternativa que encontrou para o seu ofício se tenha sobreposto aos quadros que sempre fez.
Os presépios são o produto mais vendido. Tanto no tradicional linho cru, como nas peças em burel. Os que tem expostos na banca situam-se entre os 35 e os 195 euros, dependendo do tamanho.
Madalena Novo vai a feiras por todo o país e este não é um artigo sazonal. Vende presépios o ano inteiro. “Há muita gente a colecionar, as pessoas querem coisas diferentes e eu vou mudando os modelos”, explica.
O mais pequeno, em burel, é atualmente a criação de Madalena com maior sucesso. Custa 35 euros. Expostos tem também os painéis com os tradicionais bordados de flores, aves, frutos, laços em fio de seda sobre o linho cru. O mais pequeno, de 25 por 25 centímetros, ronda os 35 euros. Outros ascendem aos 3 mil euros.
A artesã admite que não é barato, mas considera que não equivale ao trabalho que dá, nem corresponde à minúcia e trabalho empenhados.

“Tem muita técnica. Tem de ser feito com o preceito do linho, com linha de seda natural, que não é fácil de trabalhar. Só com muita prática se faz um trabalho perfeito. É muito moroso de fazer, por isso, não pode ser barato”, salienta Madalena Novo. Coisas maiores, “só para quem tem poder económico”. No caso de colchas, que já não faz, os valores chegam a muitos milhares de euros.
Para quem quer uma pequena lembrança, o artigo mais barato são marcadores de livro com o característico bordado de Castelo Branco, produto artesanal com especificidades únicas que consta no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
A artesã do Fundão diz que, além do município de Castelo Branco, apenas mais três pessoas têm certificação. Os presépios vendidos por Madalena têm afixado o número da peça e da Unidade Produtiva Artesanal.
A primeira vez que vendeu presépios, foi na Feira Internacional de Lisboa. Ia sem expectativas. “No segundo dia, já não tinha nenhum”, frisa.
Orgulha-se de ter criado um artigo próprio, que há quem tente replicar, embora não com os mesmos materiais. “Da estrutura interior, às cabeças e depois ao vestir, sou eu que faço tudo manualmente”, enfatiza a artesã, que também vende ‘online’.
Além de demorar a fazer, “a linha é caríssima”. Tem os presépios e peças maiores, que “levaram três meses a fazer”. “Nem toda a gente consegue perceber o trabalho que lá está”, lamenta a embaixadora do bordado de Castelo Branco, que “de novinha” aprendeu “todo o tipo de pontos”, mas que se dedicou a este em particular.
Madalena Novo observa que há quem queira aprender a fazer o bordado, mas acrescenta que falta compromisso e constância para que se consiga ter um nível aceitável e os iniciantes acabam por desistir.
“Não é fácil. Para se fazer bem é preciso treinar muito. Há muita gente que quer aprender, mas fazem um quadradinho e ficam por ali”, constata a artesã, que há seis décadas tem uma relação próxima com os bastidores em linho e o bordado com linha de seda natural.