Nem a chuva afastou multidão do tradicional primeiro banho do ano em Ílhavo

Mais de 1200 pessoas cumpriram, na manhã desta quinta-feira, a tradição anual do primeiro banho do ano, na praia da Barra. Mesmo com a chuva, não faltou coragem aos nadadores de toda a parte para entrar na água, nesta praia do concelho de Ílhavo. 
Joana Amarante
Joana Amarante Jornalista
01 jan. 2026, 00:00

Milhares de pessoas correm na praia em direção ao mar, na tradição do primeiro banho do ano da Praia da Barra, em Ílhavo.
Fotografia: Mais de 1200 pessoas participaram na iniciativa.

É ao som do búzio que a multidão corre para o mar. No primeiro dia do ano, nem os 9ºC que se faziam sentir no exterior ou a chuva que caía impediram as milhares de pessoas de vestir os fatos de banho. 

Organizada pela Associação dos Amigos da Praia da Barra há 14 anos, o Banho do Ano é uma iniciativa que tem registos há mais de 40. “A Associação começou a organizar a partir de 2012, mas isto é uma tradição que transita do Atita, que era um conhecido professor de natação aqui de Aveiro. O início temos ideia, segundo alguns registos que foi por volta de 1983/84”, diz Manuel Trovisco, presidente da Associação dos Amigos da Praia da Barra. 

“Eu costumo dizer que é um fenómeno engraçado, porque cada ano cresce e não tem a ver com a nossa divulgação, tem a ver com o passar a palavra e com as pessoas desafiarem-se a elas próprias e trazerem um amigo diferente cada ano.”, acrescenta. 

Entre as mais de 1200 pessoas, vestido de Pai Natal para “chamar um pouco à atenção” estava Leoncio Esteban, que viajou direto de Madrid de propósito. “Já o faço há mais de 30 anos. É pela tradição. Parámos no campismo uma vez e uns amigos disseram que isto existia, achámos muito bem, muito original ”, sublinha em entrevista ao Conta Lá.

Houve também quem regressasse ao berço. Patrícia Fernandes, imigrante há quase 20 anos na Suíça, não deixou de cumprir a tradição que vem desde pequenina. “Faz relembrar muitas coisas, na família vão se perdendo entes que nos acompanhavam sempre e por isso temos de manter” Trouxe a família toda e veio equipada a rigor, com touca de banho, esponja e um pato de borracha. 

Já Lucinda Fartura não esperou pelo búzio e foi testar a água mais cedo. De Esgueira, mas imigrante no Canadá, foi pela primeira vez. “Vim fazer companhia à minha sobrinha, decidimos à última da hora, ontem à meia noite. O meu marido dizia que eu não tinha coragem e eu vim provar que conseguia”, confessa.

Desafios não faltaram e ir sozinho foi um deles. Laura Santos já é espetadora assídua, mas este ano teve coragem de ir ao mar.  “Achei que o desafio tinha de começar de alguma maneira e enfrentar os nossos medos é uma boa forma de iniciar o ano. Vim sozinha porque não podemos depender dos outros para tomar iniciativa, é fundamental nos dias de hoje sairmos da zona de conforto independentemente da idade que tenhamos.” A peruca e o colar de flores que usa diz serem para “motivar e fazer as pessoas sorrir”. 

Entrar na água em pleno inverno também pode ser um obstáculo, mas a segurança está presente neste dia. “Temos nadadores-salvadores em terra, na mota de água, temos zonas delimitadas para o próprio banho e também temos um banho inclusivo com uma cadeira de rodas adaptada para ir à água.” , diz o presidente da associação que organiza o banho. 

Búzio da sinal da partida

O que muitos não sabem é que são três mergulhos e é António Almeida que há 23 anos dá o sinal da partida. Podia ser uma simples buzina, mas António utiliza um búzio. “É uma zona piscatória, e no tempo do Atita o senhor que fazia isto faleceu e eu quis continuar.”, explica. Diz que o que move esta massa humana é o “querer acreditar, talvez querer renovar as energias e é o convívio e o desafio. Acho que a nível nacional e europeu somos os maiores”, acrescenta. 

A t-shirt alusiva ao mergulho e o zumba já fazem parte da programação há alguns anos. Este ano houve uma caneca como extra que, no final do mergulho, serviu chocolate quente. “Estava bom e sabe bem depois do banho”, diz André Bastos, que foi de propósito de Oliveira de Frades, e confessa que quer repetir a experiência, deixando o conselho “para o ano, com menos roupa que só faz mais frio”.