Em Aveiro chovem cavacas para cumprir a tradição

Este fim de semana, milhares de pessoas passam pela Veneza Portuguesa, não apenas para comer os tradicionais ovos moles ou para um passeio de moliceiro nos canais. Muitas vêm para lançar, apanhar ou comer as cavacas típicas das festas de São Gonçalinho. 
 
Joana Amarante
Joana Amarante Jornalista
11 jan. 2026, 10:00

Dezenas de pessoas no Bairro da Beira-mar em Aveiro a apanhar cavacas que são lançadas do topo da capela.
Fotografia: Com redes e guarda-chuvas, milhares de pessoas passam pela capela para apanhar as cavacas.

São milhares as cavacas que há quase 100 anos seguidos chovem do topo da Capela do Bairro da Beira-Mar. A celebração, “é anterior a 1927, não sabemos exatamente quais são os primeiros anos, mas temos a certeza que desde 1927 ela acontece ininterruptamente e para o ano vai fazer 100 anos que temos sempre festa”, explica Osvaldo Pacheco, o juiz da festa. 

É o doce que move milhares de pessoas a visitar Aveiro no fim de semana das festas em Honra de São Gonçalinho. As cavacas, feitas essencialmente com ovos e farinha são muito duras e apesar de serem lançadas de metros de altura, são mesmo para comer. 

O mordomo conta que “segundo a lenda, tem a ver com o facto de São Gonçalo de Amarante ter passado por estas terras, onde os leprosos eram depositados e para não haver contacto, o pão era lançado de pontos altos.”

Quase 100 anos depois, a tradição mantém-se, sempre no início de janeiro. 

“Aqui chovem cavacas todos os dias. Eu aprecio particularmente a forma serena que os devotos do Santo circulam por aqui, porque passeiam sem qualquer cuidado especial.”

Não se consegue contabilizar o número de cavacas que são atiradas todos os anos no centro da cidade, mas Osvaldo Pacheco garante que toda a gente “gosta mesmo deste bolo duro, que é feito para pessoas de alma rija também”. 

Num fim de semana em que a chuva ameaça, os guarda-chuvas servem também para apanhar os doces que vão caindo. Há ainda quem venha de capacete e quem se vá desviando ligeiramente. É o caso de Cidália Pereira, de Coimbra, e que ficou a conhecer pelo genro que é Aveirense: “ Não quero atirar, estou aflita que me caiam em cima, estou-me sempre a desviar. Mas é uma tradição bonita, para o ano estou cá outra vez, com um capacete. É uma festa lindíssima.” 

Ao contrário de Cidália, há quem arrisque as escadas e o muro estreitos que dão ao cimo da capela. Lá em cima cumprem-se algumas promessas, especialmente de casamento. Toca-se 11 vezes o sino. Quatro vezes, uma pausa e mais sete para que se cumpra. 

Tânia Alves é de Aveiro e conta que “já é tradição apanhá-las, mas subir para as atirar é a primeira vez. Há uma primeira vez para tudo, temos que viver a experiência lá de cima.”

Já Luís Almeida, também da cidade, costuma vir todos os anos com a filha Inês, de 10 anos e a esposa que já chegou a cumprir promessa. “É das únicas festas populares que eu faço questão de vir. É muito importante para as gerações futuras o sentimento não tão cristão, mas associado à tradição e ao convívio das pessoas”, refere. A filha acrescenta, “eu adoro e a parte mais fixe é apanhar, mesmo magoando. Não tenho medo de ser atingida.” 

Maria Soares espera na fila, que pode ir até três horas de espera e onde milhares de pessoas querem participar: “Noutros anos fiquei cá em baixo, hoje é a primeira vez a atirar, quis cumprir a tradição. Quem me desafiou foi a minha tia e a minha prima.”

As cavacas são preparadas muito antes, começam a ser feitas em novembro, pelas mãos de Fernanda Sousa, que há 40 anos as vende ali. Em entrevista ao Conta Lá, confessa que foi sempre ela a fazer e que “a família não quer trabalhar nisto porque é duro. Ninguém sabe o trabalho que as cavacas dão. Não tive Natal, nem Ano Novo, foi sempre a trabalhar”.

A Doçaria Veiga, uma pastelaria de Valongo do Vouga, é uma das principais fornecedoras deste doce. Produz grandes quantidades, e vende essencialmente sacos de cinco quilos, a 45 euros cada, para serem atirados do alto da capela. Fernada, como outras pasteleiras, está sempre presente na festa, com uma barraca.

A juntar ao doce há o tradicional licor de alguidar. “Era uma bebida que era feita pelas mulheres da Beira-Mar, para aquecer a alma, uma bebida simples, mas reconfortante”, explica o juiz da festa, que diz que há até quem use a cavaca como recipiente para beber o licor. 

Orgulhoso com o impacto da celebração, Osvaldo Pacheco confessa que daqui a alguns anos “gostaria que o coração da festa continuasse a ser aqui junto à capela, com as pessoas a lançar as cavacas e com o bar da Mordomia, que é algo mítico. A preservação da cultura e da alma das nossas festas é algo importantíssimo”. 

O responsável explica que “as festas de São Gonçalinho são algo multidimensional. Tem a questão tradicional da preservação da cultura e da alma de um bairro, como tem uma parte religiosa importantíssima para quem é devoto, e ainda tem uma parte lúdica, e essa é uma pequena parte daquilo que é o corpo das festas de São Gonçalinho”. Este ano pisam o palco nomes como ÁTOA, Miguel Araújo e Némanus. 

O mordomo conclui com a mensagem de que “quem vem visitar a festa tem que passar pela capela, e passar pela experiência de apanhar e de lançar uma cavaca”.