Em Aveiro chovem cavacas para cumprir a tradição
São milhares as cavacas que há quase 100 anos seguidos chovem do topo da Capela do Bairro da Beira-Mar. A celebração, “é anterior a 1927, não sabemos exatamente quais são os primeiros anos, mas temos a certeza que desde 1927 ela acontece ininterruptamente e para o ano vai fazer 100 anos que temos sempre festa”, explica Osvaldo Pacheco, o juiz da festa.
É o doce que move milhares de pessoas a visitar Aveiro no fim de semana das festas em Honra de São Gonçalinho. As cavacas, feitas essencialmente com ovos e farinha são muito duras e apesar de serem lançadas de metros de altura, são mesmo para comer.
O mordomo conta que “segundo a lenda, tem a ver com o facto de São Gonçalo de Amarante ter passado por estas terras, onde os leprosos eram depositados e para não haver contacto, o pão era lançado de pontos altos.”
Quase 100 anos depois, a tradição mantém-se, sempre no início de janeiro.
“Aqui chovem cavacas todos os dias. Eu aprecio particularmente a forma serena que os devotos do Santo circulam por aqui, porque passeiam sem qualquer cuidado especial.”
Não se consegue contabilizar o número de cavacas que são atiradas todos os anos no centro da cidade, mas Osvaldo Pacheco garante que toda a gente “gosta mesmo deste bolo duro, que é feito para pessoas de alma rija também”.

Num fim de semana em que a chuva ameaça, os guarda-chuvas servem também para apanhar os doces que vão caindo. Há ainda quem venha de capacete e quem se vá desviando ligeiramente. É o caso de Cidália Pereira, de Coimbra, e que ficou a conhecer pelo genro que é Aveirense: “ Não quero atirar, estou aflita que me caiam em cima, estou-me sempre a desviar. Mas é uma tradição bonita, para o ano estou cá outra vez, com um capacete. É uma festa lindíssima.”
Ao contrário de Cidália, há quem arrisque as escadas e o muro estreitos que dão ao cimo da capela. Lá em cima cumprem-se algumas promessas, especialmente de casamento. Toca-se 11 vezes o sino. Quatro vezes, uma pausa e mais sete para que se cumpra.
Tânia Alves é de Aveiro e conta que “já é tradição apanhá-las, mas subir para as atirar é a primeira vez. Há uma primeira vez para tudo, temos que viver a experiência lá de cima.”
Já Luís Almeida, também da cidade, costuma vir todos os anos com a filha Inês, de 10 anos e a esposa que já chegou a cumprir promessa. “É das únicas festas populares que eu faço questão de vir. É muito importante para as gerações futuras o sentimento não tão cristão, mas associado à tradição e ao convívio das pessoas”, refere. A filha acrescenta, “eu adoro e a parte mais fixe é apanhar, mesmo magoando. Não tenho medo de ser atingida.”
Maria Soares espera na fila, que pode ir até três horas de espera e onde milhares de pessoas querem participar: “Noutros anos fiquei cá em baixo, hoje é a primeira vez a atirar, quis cumprir a tradição. Quem me desafiou foi a minha tia e a minha prima.”
As cavacas são preparadas muito antes, começam a ser feitas em novembro, pelas mãos de Fernanda Sousa, que há 40 anos as vende ali. Em entrevista ao Conta Lá, confessa que foi sempre ela a fazer e que “a família não quer trabalhar nisto porque é duro. Ninguém sabe o trabalho que as cavacas dão. Não tive Natal, nem Ano Novo, foi sempre a trabalhar”.

A Doçaria Veiga, uma pastelaria de Valongo do Vouga, é uma das principais fornecedoras deste doce. Produz grandes quantidades, e vende essencialmente sacos de cinco quilos, a 45 euros cada, para serem atirados do alto da capela. Fernada, como outras pasteleiras, está sempre presente na festa, com uma barraca.
A juntar ao doce há o tradicional licor de alguidar. “Era uma bebida que era feita pelas mulheres da Beira-Mar, para aquecer a alma, uma bebida simples, mas reconfortante”, explica o juiz da festa, que diz que há até quem use a cavaca como recipiente para beber o licor.
Orgulhoso com o impacto da celebração, Osvaldo Pacheco confessa que daqui a alguns anos “gostaria que o coração da festa continuasse a ser aqui junto à capela, com as pessoas a lançar as cavacas e com o bar da Mordomia, que é algo mítico. A preservação da cultura e da alma das nossas festas é algo importantíssimo”.
O responsável explica que “as festas de São Gonçalinho são algo multidimensional. Tem a questão tradicional da preservação da cultura e da alma de um bairro, como tem uma parte religiosa importantíssima para quem é devoto, e ainda tem uma parte lúdica, e essa é uma pequena parte daquilo que é o corpo das festas de São Gonçalinho”. Este ano pisam o palco nomes como ÁTOA, Miguel Araújo e Némanus.

O mordomo conclui com a mensagem de que “quem vem visitar a festa tem que passar pela capela, e passar pela experiência de apanhar e de lançar uma cavaca”.