Comboio que parou em 1988 pode voltar a apitar no Douro: IP aponta arranque da obra para 2028

A reabertura do troço da Linha do Douro entre o Pocinho e Barca d'Alva é uma das bandeiras de vários autarcas da região. Ao Conta Lá, a IP perspetivou que tal possa acontecer ainda esta década, apontando o arranque da obra para 2028. Estudo da CCDR-N já elencou as vantagens da reativação.
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
02 jan. 2026, 07:00

A viagem desde Campanhã, no Porto, até Barca d'Alva durava entre 3h30 e quatro horas, continuando depois para Espanha
Fotografia: Associação Vale d'Ouro

Durante quase quatro décadas, o silêncio dos carris entre o Pocinho e Barca d’Alva tornou-se parte da paisagem do Douro. Desde 1988 que o comboio deixou de chegar ao último quilómetro da Linha do Douro, interrompendo uma ligação ferroviária que, durante décadas, serviu populações e mercadorias. Espera-se, contudo, que o troço reabra já nos próximos anos. O estudo prévio refere que a reativação pode criar mais de quatro mil empregos e gerar milhões de euros para a região.

A Infraestruturas de Portugal (IP) garantiu ao Conta Lá que a reabertura do troço final da Linha do Douro está “mais perto do que nunca” e aponta para 2028 o ano de arranque das obras de reativação dos 27 quilómetros entre o Pocinho e Barca d’Alva.

Em 2024 foi entregue ao gabinete de Edgar Cardoso o concurso público para a execução do estudo prévio e do projeto para a reativação do troço em questão, num valor superior a quatro milhões de euros

Em resposta às questões colocadas pelo Conta Lá, a IP explica que o concurso já em desenvolvimento tem como objetivo claro a devolução do comboio ao Douro na fronteira até Espanha, agora com uma infraestrutura moderna, eletrificada e adaptada aos padrões atuais.

Encerrado há 37 anos, o troço Pocinho–Barca d’Alva nunca deixou de ser reclamado por autarquias, populações e agentes económicos. Foi, aliás, um tema bastante discutido nas últimas eleições autárquicas por parte de vários municípios abrangidos pela ligação.

Segundo a Infraestruturas de Portugal, o Estudo Prévio do projeto foi concluído e aprovado em julho de 2025. 

Encontra-se agora em curso a fase de projeto de execução, em simultâneo com o Estudo de Impacte Ambiental, cuja conclusão está prevista para o segundo trimestre de 2026. Só depois da Avaliação de Impacte Ambiental e da emissão da respetiva Declaração será possível lançar os concursos para as empreitadas.

Se os prazos se mantiverem, 2028 será o ano em que “estarão reunidas as condições para avançar com a obra no terreno”, lê-se na resposta enviada ao Conta Lá.

Foto: Estação Ferroviária de Barca d'Alva nos seus primórdios (Emilio Biel/Arquivo)

Linha eletrificada e com estações reabilitadas

A intervenção prevista vai muito além da simples reposição da via. De acordo com a IP, o projeto contempla a reativação e eletrificação integral do troço, a reabilitação das estações, a adaptação das plataformas de passageiros, a execução de sistemas de drenagem, a construção da plataforma de via, a estabilização de taludes, o reforço de pontes e a adaptação de túneis para a eletrificação.

Esta reabertura surge integrada numa estratégia mais ampla de modernização da Linha do Douro. 

A linha está atualmente eletrificada até ao Marco de Canaveses, estando em curso as obras entre o Marco e a Régua. 

Já os estudos e projetos para a modernização entre a Régua e o Pocinho estão em fase de contratação, permitindo que a eletrificação e a sinalização eletrónica avancem de forma contínua até Barca d’Alva.

Os números do estudo desenvolvido pela CCDR Norte e pela Infraestruturas de Portugal, em outubro de 2022, reforçam as vantagens do investimento. Em maio de 2021, foi constituído um grupo de trabalho que realizou o estudo em questão.

Antes disso, em março de 2021, o Parlamento aprovou, por unanimidade, uma petição para a reabertura deste troço. O documento apresentado pela Liga dos Amigos do Douro Património Mundial e da Fundação Museu do Douro reuniu quase 14 mil assinaturas.

As conclusões apontam para um projeto “rentável do ponto de vista económico”, com benefícios que superam largamente os custos.

O investimento estimado é de cerca de 74,7 milhões de euros, mas os benefícios económicos, sociais e ambientais atingem 84,2 milhões de euros, a preços constantes. O Valor Atual Líquido é positivo, em 42,5 milhões de euros, e a taxa interna de rentabilidade económica situa-se nos 8,04%, levando os autores do estudo a recomendar a execução da obra.

 

Turismo como motor da procura

É sobretudo no turismo que a reabertura da linha promete deixar marcas. Ao longo dos 26 anos de exploração analisados, o estudo estima um aumento de 101,2 milhões de euros no Valor Acrescentado Bruto da fileira do turismo, com a criação de mais de 4700 postos de trabalho nos 22 municípios da área de influência económica da linha.

A hotelaria e restauração surgem como os setores mais beneficiados, mas os efeitos estendem-se a áreas como os transportes, os serviços culturais e recreativos e o comércio local, incluindo produtos típicos da região.

A procura inicial estimada é de 256 passageiros por dia no primeiro ano de exploração, com crescimento ao longo do tempo. Mais de metade dos utilizadores do transporte coletivo, cerca de 59,5%, deverá optar pelo comboio, atraída por uma redução do tempo de viagem face ao automóvel ou ao autocarro. O estudo aponta que para uma poupança média de cerca de meia hora.