O último cabreiro de Penamacor

Aos 83 anos, António Poças, como é conhecido, tem um rebanho de 90 cabras charnequeiras numa exploração tradicional, onde faz tudo sozinho. Residente em Aldeia do Bispo, é guardião da raça autóctone de que só restam mil exemplares.
 
Ana Ribeiro Rodrigues
Ana Ribeiro Rodrigues Editora-executiva
22 dez. 2025, 07:00

Pastor caminha atrás de rebanho de cabras de raça charnequeira beirã
Fotografia: António Toscano pasta rebanhos de cabras charnequeiras desde os 12 anos

Filho e neto de guardadores de cabras, António Toscano, 83 anos, seguiu-lhes as pisadas. Desde os 12 que é cabreiro, altura em que saiu da escola, onde todos os dias o professor lhe “sacudia as orelhas”. Desesperado com as reguadas e com a vara de marmeleiro de que era alvo, trocou a aprendizagem das letras e dos números por um rebanho de 300 cabeças que tinha de cuidar. 

A paisagem raiana, a rudeza do campo, os horários exigentes, os quilómetros percorridos diariamente atrás dos animais, o quotidiano dedicado à cabra charnequeira beirã moldaram a arquitetura da vida de António Poças, alcunha herdada do avô. 

Passou por várias “quintas ricas” da região. Casas agrícolas de renome, onde sempre preferiu lidar com cabras e deixou as ovelhas para outros. Andou com rebanhos de várias dimensões em propriedades de 200 e 300 hectares. O maior com 800 cabras. 

Começou a fazer contas à vida. O soldo era curto para o que fazia. O trabalho exigente. Aos 36 anos, decidiu trabalhar por conta própria, com 70 cabras charnequeiras beirãs, raça autóctone em risco de extinção. Ajudou a mulher a produzir queijo com o leite que ordenha duas vezes ao dia, manualmente. Foi aumentando o número de animais em Aldeia do Bispo, no concelho de Penamacor. 

Agora, com enganadores 83 anos que lhe permitem ter um passo ligeiro para acompanhar o rebanho, destreza para lidar com o temperamento desta espécie e força para pegar, repetidamente, em dois chibos de cada vez debaixo do braço, conta com 90 cabras charnequeiras e 28 crias. 

 


António Poças é caso único

No país, há apenas cerca de mil animais desta raça autóctone, distribuídos por 15 explorações, na Beira Baixa e parte da Beira Alta. Mas não há na região nenhum outro criador com as características de António Poças, garante Pedro Cardoso, secretário técnico da raça charnequeira na Ovibeira, associação de produtores agropecuários. 

“Isto é um caso que deve ser único. Dificilmente encontramos outro criador que acompanhe o rebanho, sozinho, 24 horas por dia. Os outros têm explorações mistas, também com efetivos de ovinos”, salienta o veterinário.

Pedro Cardoso chama também a atenção para o cabanal de António Poças, com quase todos os materiais feitos pelo próprio, desde manjedouras a chavelhas, badalos e vários utensílios utilizados nestas lides. 

O secretário técnico da raça charnequeira menciona “o maneio diferente” que exige esta espécie. Requer mais mão-de-obra, maior conhecimento, que vai escasseando, e é menos produtiva. Quer no leite, quer na carne. Por outro lado, tem particularidades anatómicas que lhe permitem produzir um leite específico e uma robustez física que lhes dá aptidão para andarem por terras com relevos mais difíceis. 

Gostarem de pastar com a cabeça alta, subirem, descerem e saltarem com facilidade torna-as cabras sapadoras. Quando António arrendou o terreno onde as leva ao pasto, o mato era mais alto do que o pastor. Esses arbustos, desapareceram e tudo é raso e alimento. 

 

“Isto é um vício”

António dispensa a companhia de ovelhas mas, aos 83 anos, não se imagina desfazer-se do rebanho de cabras charnequeiras, com que tem ganhado prémios em várias feiras e concursos. 

“Isto é um vício que a gente tem”, observa o residente em Aldeia do Bispo, que há 71 anos exerce a atividade por terras de Penamacor e do distrito de Castelo Branco. O único hiato foram os três anos que passou em Moçambique, na Guerra Colonial. “Deixar, só se tiver algum azar de repente. Enquanto eu possa, não”, reforça. 

A preferência por cabras justifica-a com a facilidade em obedeceram “com um berro”, enquanto “as ovelhas, quando atentam ir para uma terra guardada, só com um cão bom que as faça de lá vir”. 

Aprecia as charnequeiras por serem “mais resistentes para o campo, mais rijas”. 

Esta vida não distingue dias da semana. Não permite folgas. António Poças, mãos curtidas dos gestos ágeis repetidos no trato com os animais, habituou-se a lidar com os enguiços que surgem. 

Passa muitas horas sozinho. O silêncio, o balir e os cães Tejo, Macaco e Piruças são companhia. Não tropeça na solidão. Os afazeres sobrepõem-se e as tarefas multiplicam-se entre as 6 horas da manhã e as 22h00, quando deixa as cabras tratadas no cabanal, ao lado de casa. 

O trabalho é árduo e não é para qualquer um, mas também não se imagina a deixar de respirar o ar gélido vindo da serra da Malcata no inverno e o calor sufocante que no verão se sente na raia. 

“Estou avezado a isto”, diz, depois de ter ido cumprimentar os vizinhos espanhóis que lhe acenam do caminho. 

Além disso, já passou pior. “Tempos ruins”, quando, chovesse ou não, pastassem ou não, os patrões ou feitores o obrigavam a sair com o rebanho do coberto. Ou quando “não havia uma ração, um fardo de feno, era só o que a terra dava”. E, às vezes, era insuficiente. 

António Poças, como é conhecido em Penamacor, distingue todas as cabras. Não se engana nos “chibos” que correspondem a cada animal na hora de mamar. “Aqui não há confusões. Conheço-as desde que nascem”, sublinha. 

 

“Património único no mundo”

Pedro Cardoso enaltece a dedicação de António, numa exploração tradicional, a uma raça que “está numa erosão considerável” e defende que o poder político deve assumir a missão de a proteger. Por exemplo, utilizando-as na limpeza de terrenos. 

“É um património único no mundo, com valor inestimável, tal como é o património edificado que temos em outros locais, como a Torre de Belém ou o Mosteiro dos Jerónimos. Este também é nosso e não existe em mais lado nenhum”, enfatiza o secretário técnico da raça charnequeira, que também existe no ecótipo regional alentejano. 

Para António Toscano, a raça autóctone está bem presente. Quando as cabras lhe dão menos que fazer, tira da bandoleira em cabedal feita pelo próprio navalhas, alicates, sevelas e dá asas ao artesão que há em si.