Será hoje "o dia mais triste do ano"? O que diz a psicologia quando tiramos o marketing da conversa

A Blue Monday, "o dia mais triste do ano", assinala-se hoje, 19 de janeiro. Nesta reportagem, explicamos a origem do conceito, a sua difusão mediática e o peso emocional de janeiro, com o contributo da psicóloga Andreia Filipe Vieira, entrevistada pelo Conta Lá.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
19 jan. 2026, 07:00

Blue Monday
Fotografia: A Blue Monday assinala-se hoje, 19 de janeiro, e volta a circular como “o dia mais triste do ano” | Imagem gerada por IA

A expressão Blue Monday (segunda-feira triste, em português) reaparece anualmente no calendário mediático como uma espécie de ritual de inverno. São poucas as pessoas que conseguiriam identificar o dia da Trindade, o início do Ano Novo Chinês ou o aniversário da primeira fotografia digital, mas sabem que existe, algures em janeiro, o chamado “dia mais triste do ano”. Em 2026, a data recai a 19 de janeiro, a terceira segunda-feira do mês, e, pela internet, surgem previsivelmente referências à depressão, à falta de luz, ao inverno, às resoluções que já falharam e ao regresso à rotina. 

A Blue Monday tornou-se um fenómeno cultural, um meme legitimado por uma linguagem pseudocientífica, amplificado por agências de viagens, meios de comunicação, campanhas de autoajuda e, nos últimos anos, pelos feeds de motivação das redes sociais. A própria persistência da ideia desperta uma questão curiosa: o que explica a força de um conceito que combina uma equação de marketing com a experiência humana de um mês que muita gente tende a associar ao desgaste emocional?

 

A origem e a construção de um conceito global

A primeira referência pública à Blue Monday surgiu em 2005, quando uma agência turística britânica decidiu promover uma campanha de viagens de inverno com o apoio mediático de um psicólogo, Cliff Arnall. Para sustentar a ideia de que o desânimo de janeiro podia ser combatido reservando férias, foi apresentada uma fórmula matemática que supostamente identificaria o dia mais deprimente do ano através de variáveis como o mau tempo, o fim das festas, as dívidas, o fracasso das resoluções e o regresso ao trabalho. 

A fórmula não resistiu a qualquer escrutínio científico, mas não precisava de o fazer para funcionar publicitariamente. Vinte anos depois, o homem que a assinou parece mais consciente do papel promocional que desempenhou do que da validade psicológica da equação. 

Em 2010, numa entrevista ao Daily Telegraph, Arnall reconheceu que a ideia não pretendia ser uma verdade clínica, afirmando que o seu objetivo era “sensibilizar as pessoas para planearem coisas que as fizessem sentir melhor” e não estabelecer uma espécie de diagnóstico coletivo anual. Além disso, explicou que a fórmula era “especulativa” e que nunca foi concebida para ser interpretada de forma literal ou universal. As suas palavras funcionam hoje como lembrete de que a Blue Monday nasceu num cruzamento improvável entre a psicologia superficial e a publicidade criativa, numa época em que os termos “neurocérebro”, “química da felicidade” e “produtividade” começavam a ganhar presença nos discursos de marketing.

A imprensa britânica percebeu cedo o potencial da história. A narrativa encaixava perfeitamente na cultura jornalística do “facto curioso” que sustenta páginas de variedades e segmentos televisivos de janeiro. Não havia grande risco editorial, havia humor, havia pseudoconhecimento científico e havia uma forma rápida de explicar por que é que tanta gente parecia estar “em baixo” nas semanas seguintes ao Natal. 

Mesmo em Portugal, o conceito começou a aparecer recorrentemente em jornais, rádios e televisões. A Blue Monday tem vindo a ganhar popularidade nos últimos anos e assenta numa fórmula matemática que leva em conta fatores como o clima, as dívidas acumuladas e o fim das festas. O que raramente é mencionado é que essa fórmula nunca teve validação científica real e que a própria evolução do discurso do seu autor aponta para uma origem mais cultural do que médica.

 

Porque janeiro pesa tanto mesmo sem fórmula nenhuma

Se a Blue Monday não se sustenta enquanto diagnóstico coletivo, também não se pode ignorar que janeiro carrega fatores objetivos que tornam o mês emocionalmente exigente. Trata-se de uma altura marcada por dias curtos, pouca exposição solar, baixa motivação, regresso ao trabalho após um período festivo e, para muitas famílias, um peso financeiro adicional devido aos gastos de dezembro. 

Na Europa e na América do Norte, os níveis de luminosidade no inverno interferem com os ritmos circadianos e com a produção de melatonina e serotonina, dois sistemas que influenciam o sono e o humor. 

Em entrevista ao Conta Lá, a psicóloga clínica Andreia Filipe Vieira observa que muitos pacientes descrevem uma sensação de “lentidão” ou quase “hibernação” durante este período, explicando que a diminuição das horas de luz “afeta os ritmos biológicos ligados ao sono e ao humor”, tornando as pessoas mais vulneráveis a estados melancólicos.

O impacto não é apenas biológico. Janeiro simboliza recomeço, produtividade e expectativas elevadas. É o mês em que as resoluções de Ano Novo começam a falhar, em que a sensação de regressar “ao mesmo de sempre” contrasta com a promessa de mudança coletiva que se faz no dia 1. Há quem regresse ao trabalho com motivação, mas há também quem sinta um contraste violento entre a suspensão afetiva das festas e a velocidade dos dias úteis. 

O cansaço acumulado de dezembro junta-se à pressão económica, ao menor convívio social e ao imperativo de produzir, criando um caldo psicológico que explica muito da tristeza sazonal sem precisar de recorrer a equações publicitárias. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, fala-se cada vez mais de ‘January Blues’, uma expressão mais ampla que descreve o desânimo típico do mês, sem data específica e sem pretensão científica.

 

O que diz a psicologia quando tiramos o marketing da conversa

A Blue Monday pode ter história, mas falta-lhe ciência. O sofrimento emocional não se organiza segundo calendários promocionais e a ideia de que existe um único dia universalmente mais triste é impossível de compatibilizar com a diversidade da experiência humana.

Andreia Vieira rejeita a lógica clínica do conceito de forma clara, afirmando que “as emoções não seguem o calendário” e que “o sofrimento psíquico nasce de trajetórias pessoais, de perdas, conflitos e relações que não se deixam medir por datas comerciais”. 

A redução da tristeza a um evento anual tem, no seu entendimento, um problema evidente: arrisca desvalorizar sinais de sofrimento reais em nome de uma etiqueta simpática. A psicóloga conta ainda que nunca encontrou, na sua prática clínica, alguém que estivesse triste “por ser Blue Monday”, sublinhando que quando alguém não sabe explicar bem o que sente é porque, geralmente, “está a atravessar questões profundas e acumuladas, e não porque chegou um dia específico de janeiro”.

Existe ainda um segundo equívoco que importa desmontar: a pretensão de traduzir estados emocionais em equações. Cliff Arnall nunca afirmou que o cálculo era científico, mas o modo como o conceito se espalhou sugeriu, durante anos, que era possível quantificar tristeza com o mesmo rigor com que se medem precipitações ou amplitudes térmicas. 

A psicóloga Andreia Vieira recusa a lógica numérica e lembra que, psicossomaticamente, “as emoções podem ser estudadas e observadas, mas não calculadas”, já que um número jamais capta a complexidade “de um luto, de uma ansiedade antiga ou de um desejo frustrado”, até porque dois pacientes com vidas semelhantes reagem de formas totalmente diferentes às mesmas circunstâncias. 

A distância entre o rigor da psicologia clínica e a leviandade das campanhas de marketing é suficiente para mostrar o grau de simplificação que ocorreu quando a Blue Monday foi inventada. O que não implica que o fenómeno cultural seja irrelevante, apenas que a sua validade não está no campo biomédico.

 

Tristeza, depressão e a tentação cultural de arrumar sentimentos

Parte do fascínio cultural da Blue Monday pode ser explicada pela necessidade de arrumação emocional. As sociedades modernas tendem a simplificar estados internos para os tornar comunicáveis e partilháveis. A tristeza, o tédio, a frustração e o vazio são experiências difíceis de nomear publicamente, pois pedem tempo, nuance e, muitas vezes, silêncio. 

A etiqueta Blue Monday oferece uma narrativa simples e democrática: toda a gente está um pouco mais triste naquele dia, logo ninguém falhou individualmente. Este enquadramento pode ter uma função social - diminuir o estigma ao normalizar o mal-estar - mas traz consigo um risco de banalização quando substitui a linguagem clínica e existencial por slogans. 

A psicóloga Andreia Vieira recusa essa redução, distinguindo tristeza de depressão e explicando que “a tristeza é uma emoção que vai e vem, que costuma ter um motivo e que mantém a pessoa ligada aos outros, enquanto que a depressão é um estado que se prolonga no tempo e que esvazia a vitalidade, criando sensações de inutilidade ou vazio”. Esta diferença é essencial para a saúde pública, pois impede que a tristeza seja tratada como doença e que a depressão seja tratada como cansaço, dois erros simetricamente nocivos.

O sofrimento emocional, quando ignorado ou adiado, tende a manifestar-se de forma mais hostil. A psicóloga alerta para sinais de alarme que ultrapassam a melancolia sazonal, como semanas seguidas sem dormir bem, incapacidade de trabalhar ou concentrar-se, perda de prazer em atividades antes significativas e sensação persistente de vazio ou culpa. 

A depressão é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e afeta, segundo estimativas recentes, cerca de 5,7% dos adultos a nível global. Trata-se de um quadro clínico que nada tem que ver com a falta de motivação de janeiro: envolve tristeza persistente, perda de interesse e alterações no sono, na energia e no apetite, e é uma das principais causas de incapacidade no mundo. Quando se fala de Blue Monday sem esta distinção, corre-se o risco de misturar estados passageiros com uma doença séria, dificultando tanto o diagnóstico clínico como a literacia pública sobre o tema.

 

Redes sociais, produtividade e a política do humor em janeiro

Se o fenómeno começou como campanha de viagens, hoje encontra o seu palco privilegiado nos feeds de motivação e bem-estar. É comum, no dia da Blue Monday, verem-se publicações que aconselham “pensar positivo”, adotar uma “mentalidade vencedora” ou tratar o sofrimento como uma questão de atitude. Ao mesmo tempo, surgem campanhas de marcas que oferecem descontos para “combater o desânimo” ou iniciativas de ginásios e apps de mindfulness que prometem recuperar a vitalidade perdida. 

Esta mistura de psicologismo superficial com imperativos de produtividade cria um ambiente em que a tristeza é aceite enquanto hashtag, mas mal tolerada enquanto experiência real. Andreia Vieira observa que, para alguns pacientes, esta cultura agrava o sofrimento, porque a mensagem de que “basta ser positivo” pode aumentar sentimentos de inadequação. “Uma pessoa que se sente vulnerável olha para esses discursos e conclui que toda a gente consegue ser resiliente menos ela, reforçando a culpa e o isolamento”, acrescenta.

A própria cultura da produtividade permanente, que valoriza a utilidade e penaliza a pausa, funciona como pano de fundo desta tensão. A psicóloga nota que, atualmente, existe “pouca tolerância para o tédio, para o vazio e para as fases menos produtivas”, precisamente os momentos que a psicanálise identifica como férteis para o trabalho interno. A Blue Monday ocupa assim um espaço paradoxal: funciona como válvula social para expressar a exaustão, mas ao mesmo tempo reforça a ideia de que o vazio é exceção, não parte da vida.

 

No fim, o que fica: um mito útil ou apenas um meme de inverno?

A questão que sobra não é científica, é sociológica. A Blue Monday sobrevive, não porque seja verdadeira, mas porque responde a uma necessidade cultural. Vivemos num tempo que exige explicações rápidas para fenómenos complexos e que prefere slogans a ambivalências. Janeiro pesa porque convoca perdas, balanços, expectativas e finitude. A Blue Monday oferece uma narrativa leve para nomear tudo isto, e talvez seja essa a sua utilidade real. 

Entre psicólogos, clínicos, jornalistas e criativos, esta utilidade tem leituras diferentes. Para Andreia Vieira, o que importa é que “as pessoas não desvalorizem o que sentem em nome de um rótulo simpático: o que alguém sente é válido, não por ser Blue Monday, mas porque é seu”, diz, acrescentando que “procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de cuidado para consigo próprio”.

Cliff Arnall, por sua vez, viu a sua criação com leveza, mais como convite a planear experiências positivas do que como diagnóstico global. Para os meios de comunicação, a data é um pretexto narrativo útil num mês sem grandes acontecimentos. Para as redes sociais, é um dia temático. Para algumas pessoas, é apenas mais uma segunda-feira.

A Blue Monday não demonstra que existe um dia mais triste do ano, mas demonstra que existe uma necessidade social de legitimar a tristeza. Ao reduzir o sofrimento humano a uma equação, o conceito banaliza-o; ao permitir que se fale dele sem vergonha, normaliza-o. Esta ambivalência talvez explique porque continua a circular. 

No fim, o valor da Blue Monday não é clínico nem científico, é cultural. Não explica a melancolia de janeiro, limita-se a emprestar-lhe um nome. E os nomes, quando se fala de afetos, nunca são neutros.