Quebra acentuada na produção de leite terá consequências no setor do queijo
O alimento que as cerca de 100 cabras de José Carlos Alves, em Castelo Novo, tinham até abril ardeu todo em agosto, no incêndio que assolou o concelho do Fundão. Isto levou a uma quebra da produção de leite para metade. “Só comem palha. Na serra não têm que comer e, por isso, não vão suficientemente fartas para o palheiro. Apenas farruscas”, lamenta, em declarações ao Conta Lá.
A juntar a isto, veio o frio e o gelo que fez desaparecer alguma erva que tinha nascido. Ao pastor arderam 23 hectares de mato, 700 fardos de feno, oliveiras, tubagens, cerejeiras, pessegueiros. “Foi tudo à vida. Não há giestas, os carvalhos secaram e as cabras comem melhor o mato que a erva”, sublinha. O agricultor conta que lhe valeu a Junta de Freguesia de Castelo Novo, que ofereceu fardos de palha de aveia. “Ainda tenho quatro, quando acabarem tenho de comprar”, refere.
José Carlos Alves, de 65 anos, foi empreiteiro, mas há nove anos decidiu dedicar-se a tempo inteiro à pastorícia. Diariamente, está cerca de 12 horas de volta das cabras. O leite produzido vai, duas vezes por semana, diretamente para a Queijaria Quinta do Pomar, na Soalheira. Explica ao Conta Lá que, depois dos incêndios, recebeu 10 mil euros do Estado, mas o apoio não chega sequer para colocar o telhado a um palheiro que lhe ardeu. “Uma pessoa desmoraliza e nem apetite tenho para continuar a fazer as sementeiras”, confessa.
Por outro lado, os pastores ainda têm de lidar com a doença da língua azul, que tem afetado as ovelhas e que preocupa muitos criadores. Um deles é Manuel Matos, de 63 anos, residente na Soalheira, concelho do Fundão, que tem cerca de 200 ovelhas.
“A morte de animais devido à doença da língua azul e a falta de pasto depois dos incêndios levou à quebra na produção de leite. Isto está muito difícil para este setor e vai atingir também a fileira do queijo. Este setor é um ciclo”, explica.
O leite da exploração de Manuel Matos é recolhido para a Queijaria Soalheiralves, que trabalha com cerca de 16 produtores de leite de ovelha e cabra. Para Sérgio Alves, proprietário da empresa, para além dos incêndios que vieram a afetar o alimento dos rebanhos, também a língua azul fez muitos estragos na região. Ressalva que a quantidade de leite é cada vez menor, que existe o problema da mão-de-obra e que urge “atrair jovens” para a profissão.
“A idade média dos pastores e produtores de leite já é superior a 60 anos e os jovens não pegam nisto. É preciso atrair juventude, caso contrário pode estar em causa a continuidade da fileira. Antes, 80% das ovelhas eram para produção de leite e 20% para carne, agora a proporção vai-se invertendo. As pessoas começam a converter as explorações para as que são mais rentáveis”, remata.
No concelho de Castelo Branco, José Diogo tem 50 anos, mora no Louriçal do Campo e recorda as 90 cabeças de gado que morreram no incêndio do mês de agosto, as redes, pastagens, castanheiros e tubos de rega destruídos. Está sem vender leite desde então e já perdeu a conta aos prejuízos. Tem cerca 270 ovelhas e cabras que ficaram afetadas com o incêndio. “Estavam paridas, contudo, com o stress a maioria abortou. Não há leite suficiente para vender. O mais certo será acabar com o gado, pois se tiver rendimento será só para outubro, após elas parirem novamente”, explica o agricultor.
Muitos produtores de leite estão a desistir da atividade. Segundo Carlos Godinho, proprietário da Beiralacte - Lacticínios Artesanais Da Beira Baixa, a questão das alterações climáticas influenciou o ciclo dos animais, ao mesmo tempo que afetou as pastagens. "Trabalhamos com 20 produtores quase todos com mais de 50 anos”, diz.
Quanto à qualidade do queijo, o responsável admite que também pode ficar comprometida. “As pequenas explorações com raças autóctones reconvertem-se de modo a terem mais rentabilidade e introduzem raças mais produtivas. É claro que a qualidade do leite diminui. Estávamos habituados a um queijo mais gordo, com determinado sabor, por isso vamos passar por uma fase complicada. Há unidades transformadoras que trabalham com leite importado para colmatar a escassez do produto”, assinala Carlos Godinho.