PSD com pior resultado de sempre em presidenciais (e os outros resultados)
O resultado de António José Seguro representou, para si e para o Partido Socialista, a grande vitória da noite eleitoral. Com mais de 1.750.000 votos, superou a votação conseguida pelo PS nas últimas legislativas, em que o partido garantiu 1.442.194 votos.
Também historicamente, o PS vê melhorado o último resultado de um candidato por si formalmente apoiado. Foi em 2011, quando Manuel Alegre conseguiu menos de 20% das escolhas, na reeleição de Cavaco Silva. Depois disso, nas duas eleições de Marcelo Rebelo de Sousa, os socialistas não apoiaram outra candidatura.
Como se previa pela leitura das sondagens, Ventura foi outro grande vencedor. Há cinco anos, quando foi candidato contra a reeleição de Marcelo, o presidente do Chega ficou em terceiro lugar, com 11,90% dos votos (496.773 pessoas). Em maio do ano passado, na “vitória” nas legislativas, em que o partido passou a segunda força política no parlamento, contaram-se quase um milhão e meio de eleitores.
Nesta noite eleitoral, André Ventura aproximou-se desse resultado, ficando a escassos 100 mil votos da marca conseguida nas últimas legislativas. Se tivermos em conta que o objetivo de Ventura não é a presidência (ideia repetida por comentadores e admitida por si, que não queria candidatar-se), este resultado é uma vitória estrondosa.
Pior derrota de sempre para o PSD
O resultado de Luís Marques Mendes é o pior de sempre do PSD. Mas a dimensão da derrota de Mendes é ainda mais evidente quando se faz uma comparação com evolução histórica dos resultados. De todos os candidatos presidenciais apoiados pelo PSD, até este domingo, o resultado mais castigador de um social democrata registou-se em 2001, na reeleição de Jorge Sampaio.
O PSD apoiou Ferreira do Amaral, que não foi além dos 34,5%, com perto de um milhão e meio dos votos. Passados 25 anos, Marques Mendes só conquistou 636 mil votos, correspondentes a 11% do eleitorado.
É verdade que o cenário de dispersão de votos do eleitorado da AD (que ficou perto dos dois milhões de votos nas últimas legislativas) concorreu para este resultado. Ainda assim, diz o politólogo João Pacheco, foram cometidos erros. “Entrou [Marques Mendes] numa certa lógica de desespero. Não conseguiu descolar daquela espécie de lama política para a qual o Almirante o puxou”, acredita o especialista em comunicação política.
À medida que a campanha oficial se aproximava (e que os estudos de opinião chegavam), os eleitores passaram a habituar-se à ideia de que Gouveia e Melo não era um favorito para passar à segunda volta. Mas a verdade é que ainda antes de ser oficialmente candidato, já dominava as sondagens no ano passado.
João Pacheco acredita que tudo mudou com o início da campanha, quando “o relógio de todos os candidatos passou a zero, o que desfavoreceu Gouveia e Melo”. Isto porque, antes disso, “o Almirante era o homem da farda, das vacinas, o desejo impossível”, refere o politólogo. “Atualmente tem de despir a farda militar para vestir o fato político. Tem algumas dificuldades de comunicação, muito recurso a cábulas, não sabe jogar o jogo da política, e mesmo aqueles eleitores que querem alguém de fora desta política, também querem alguém que saiba nadar na política”, explica.
Depois de ter conseguido uma campanha entusiasmada, João Cotrim de Figueiredo vê cair por terra o objetivo - que chegou a ser bem real - de alcançar a segunda volta. Ainda assim, o mesmo exercício de comparação faz com que seja difícil encarar o resultado de domingo como uma derrota. Cotrim não multiplica só o resultado de Tiago Mayan (o candidato apoiado pela IL nas últimas presidenciais). Triplica mesmo a percentagem alcançada nas últimas legislativas pelo partido, alargando muito a base eleitoral liberal.
"Ninguém acreditava nisto (na ascensão nas sondagens)", admite João Pacheco, que não acredita ser possível ler os resultados sem olhar para o caso de alegado assédio, que marcou a segunda semana de campanha de Cotrim. "João Cotrim Figueiredo podia ficar de fora [de uma 2ª volta] por mil e uma razões. Mas é a justificação que vai acabar por estar associada a esse resultado. É tudo o que ouvimos de Cotrim nos últimos dias", diz, apesar de esse tema ter ficado de fora da noite eleitoral do candidato.
Num país parlamentar em que atualmente a direita vale mais de dois terços, já se antecipavam resultados magros para os candidatos da esquerda, sobretudo tendo em conta o desenvolvimento da narrativa do voto útil a que se assistiu na campanha. O resultado foi que, tanto para o PCP, como para o Bloco de Esquerda (que apoiaram António Filipe e Catarina Martins, respetivamente), estas eleições ditaram a maior derrota da história das presidenciais.
Os candidatos apoiados pelo PCP nunca tinham ficado abaixo dos 4% (António Filipe conseguiu 1,6%) e o Bloco, que nas últimas eleições apresentou Marisa Matias para a corrida contra Marcelo, desceu de 4% para 2,1% com Catarina Martins.
E se os partidos de esquerda terão sido “vítimas” do voto útil, houve quem tenha voluntariamente adotado contra si essa narrativa. Jorge Pinto, ainda em campanha, deixou bem claro que o seu eleitorado era livre de votar em António José Seguro. O resultado? O candidato do Livre teve menos votos do que a candidatura de Manuel João Vieira.