O que fazer com a comida que sobrou do Natal e os cuidados a ter

Apesar da contenção nas compras, o desperdício alimentar mantém-se como problema nesta quadra festiva. Ainda assim, o reaproveitamento de sobras é cada vez mais frequente.
Regina Nunes
Regina Nunes Jornalista
26 dez. 2025, 07:00

Mesa de Natal rodeada por seis pessoas a comerem e a brindarem com vinho
Fotografia: O desperdício alimentar mantém-se elevado durante o Natal, mesmo com famílias a controlarem as compras

A pressão dos preços no cabaz alimentar tem levado muitas famílias a repensar o que colocam no carrinho de compras, mas isso não se traduz, necessariamente, numa redução do desperdício alimentar. De acordo com um estudo da plataforma de combate ao desperdício alimentar 'Too Good To Go', seis em cada dez portugueses admitem desperdiçar comida nesta época festiva, sendo que cerca de 10% dos alimentos comprados para a consoada e para o almoço de Natal acabam por não serem consumidos. Em média, isto representa cerca de 12 euros por pessoa apenas em produtos para a mesa de Natal.

Entre os alimentos que mais sobram à mesa, destacam-se o pão, responsável por 27% do desperdício e os acompanhamentos como as batatas, o arroz e a massa, que representam 24%. Seguem-se os legumes cozidos e os produtos lácteos, ambos com 12%. As sobremesas, por sua vez, deixaram de ser um dos principais problemas quanto ao desperdício nesta altura. 

Tiago Figueiredo, diretor interino da Too Good To Go em Portugal, refere, em entrevista ao Conta Lá, que “apesar da inflação, os portugueses continuam a preparar comida em excesso".

“Cinco em cada dez portugueses compram mais do que precisam. Esse é o grande foco do desperdício nesta altura do ano”, explica.

Comprar mais do que o necessário está relacionado com a ideia de ter uma mesa farta nesta época: “Os portugueses gostam de ter a mesa cheia. Muitas vezes, se não estiver farta, parece que não é suficiente. Isso vem de uma educação que temos desde pequenos”, sublinha.

Ainda assim, combater o desperdício alimentar é possível e o reaproveitamento da comida em excesso é uma das formas mais eficazes. Tiago Figueiredo afirma, de resto, que "a prática de reaproveitar sobras está cada vez mais consolidada”, seja na confeção de pratos tradicionais como a “roupa velha”, na utilzação dos legumes que sobram para fazer sopas ou do peru para fazer um arroz. Por outro lado, congelar doces, como o bolo-rei, para consumir mais tarde é também cada vez mais frequente.

“Guardar corretamente os alimentos ou partilhá-los com os convidados pode fazer toda a diferença”, aconselha.

No entanto, na hora de guardar ou reaproveitar a comida que sobra, há cuidados a ter, por razões de segurança alimentar, como explica a nutricionista Conceição Calhau: “Muitas vezes passa-se muito tempo à mesa com o bacalhau ou a carne à temperatura ambiente, em salas aquecidas. O ideal é refrigerar os alimentos até duas horas depois, no caso do peixe, e até três a quatro horas no caso da carne, para evitar que se estraguem e acabem no lixo”, explica.

Para a nutricionista, o desperdício alimentar é um problema que vai muito além da quadra festiva: “O desperdício alimentar e os excessos são um problema o ano inteiro, sobretudo em ambiente doméstico. O Natal acaba por ser uma oportunidade para falar destes temas, mas não são específicos desta época”, destaca.

“Em Portugal, desperdiçam-se cerca de 1,9 milhões de toneladas de comida por ano, o que equivale a cerca de 185 quilos por pessoa”, alerta Tiago Figueiredo, que defende a importância de sensibilizar as novas gerações para o desperdício alimentar.