Festa das Fogaceiras: uma tradição cumprida há mais de 500 anos em Santa Maria da Feira

A celebração tem origem num voto feito ao mártir São Sebastião, numa altura em que a região foi devastada pela peste, prometendo o povo, em troca de proteção, uma procissão anual e a oferta da fogaça. As festas têm como ponto alto o dia 20 de janeiro, terça-feira.
Regina Ferreira Nunes
Regina Ferreira Nunes Jornalista
17 jan. 2026, 08:00

Fogaças, isto é, o pão doce de Santa Maria da Feira a serem benzidas no altar da igreja
Fotografia: As fogaças são benzidas durante a Festa das Fogaceiras, em Santa Maria da Feira (Direitos Reservados CM Santa Maria da Feira)

Janeiro é o mês das Festas das Fogaceiras em Santa Maria da Feira, no distrito de Aveiro. Uma tradição centenária que continua a marcar gerações e a afirmar-se como um dos momentos mais importantes e identitários da vida dos feirenses. As festas têm como ponto alto o dia 20 de janeiro, ou seja, a próxima terça-feira.

A celebração tem origem num voto feito ao mártir São Sebastião, numa altura em que a região foi devastada pela peste, prometendo o povo, em troca de proteção, uma procissão anual e a oferta da fogaça, isto é, o pão doce confecionado em Santa Maria da Feira para ocasiões especiais. Preparada à base de farinha, açúcar, ovos, manteiga e fermento, a fogaça distingue-se pelo sabor delicado e pelo formato inspirado nas quatro torres do Castelo da Feira, tornando-se a imagem que representa a tradição do território.

Ao longo dos séculos, este costume foi ganhando forma e simbolismo. Da oferta inicial de três grandes fogaças levadas em procissão por jovens donzelas até ao atual cortejo cívico e religioso, a tradição consolidou-se como um gesto de união da antiga Terra de Santa Maria. 

“A Festa das Fogaceiras ocupa um lugar central na identidade de Santa Maria da Feira, pela sua antiguidade, mas sobretudo pela forma como tem sido vivida e cuidada pela nossa comunidade, preservando o essencial e transmitindo-o às novas gerações”, afirma o presidente da Câmara Municipal, Amadeu Albergaria, num comunicado da autarquia.

 

O momento mais emblemático das Festas das Fogaceiras acontece a 20 de janeiro, quando Santa Maria da Feira “volta a cumprir o voto ao mártir São Sebastião”.

Nesse dia, mais de 250 Meninas Fogaceiras, vestidas de branco, com faixas coloridas à cintura e a fogaça à cabeça, participam no Cortejo Cívico e na Procissão, entre os Paços do Concelho e a Igreja Matriz.

Um percurso simples, mas extremamente importante que mobiliza famílias, escolas, associações e voluntários de todo o concelho, atravessando várias gerações.

 

A celebração estende-se até ao final do mês, com uma programação que cruza as vertentes religiosa, cultural, educativa e gastronómica. Exposições, oficinas, iniciativas pedagógicas, espetáculos musicais e atividades de valorização da Fogaça da Feira integram um programa pensado para garantir a continuidade da tradição.

“A Festa das Fogaceiras chegou até nós porque os nossos antepassados a souberam cuidar e preservar, respeitando o seu significado religioso, cultural e cívico, e adaptando-a aos diferentes tempos sem a descaracterizar”, lê-se na nota da autarquia. Um cuidado que é hoje assumido pelo município e pela comunidade, num trabalho partilhado que garante a continuidade desta tradição.

A componente educativa assume particular relevância, com atividades dirigidas a crianças e jovens: “transmitir a Festa das Fogaceiras é assegurar que ela continua a fazer sentido para quem vem a seguir”, escreve Amadeu Albergaria, sublinhando a importância de integrar as novas gerações na valorização das tradições locais.

A gastronomia tem, de igual modo, um papel central, com destaque para a Mostra do Fabrico da Fogaça, que teve lugar a 9 de janeiro, no Castelo da Feira, o único dia do ano em que o forno do Castelo é aberto para a confeção das fogaças. A iniciativa deu a conhecer o método tradicional da preparação deste pão doce, que continua a ser produzido diariamente em várias casas do concelho, seguindo, cuidadosamente, os preparos ancestrais e as receitas transmitidas de geração em geração.

A programação cultural reserva ainda espaço para a música, com o ciclo “3 Concertos, 3 Casas”, a estreia do tema “O Mundo Vai Dar Certo”, da banda Daguida, criado especialmente para a Festa das Fogaceiras. 

Embora profundamente enraizada em Santa Maria da Feira, a Festa das Fogaceiras ultrapassa as fronteiras do concelho. Como refere o presidente da autarquia, trata-se de uma celebração “sentida de forma muito especial pelos feirenses que vivem fora de Santa Maria da Feira, em Portugal e no estrangeiro, para quem continua a ser uma ligação à sua terra natal”, lê-se no texto publicado.

A autarquia reconhece todos os que mantêm viva esta tradição, “geração após geração”, desde famílias e voluntários a associações, instituições e trabalhadores municipais, convidando todos a viver a Festa das Fogaceiras “com o mesmo orgulho com que Santa Maria da Feira a tem preservado”.