Alzheimer: há uma casa em Viseu que apoia quem vive "uma luta constante"
Eduarda Cunha, de 76 anos, é mulher de Luís, de 85, diagnosticado com Alzheimer há 12. Os primeiros sinais de demência foram as constantes desorientações. Para Eduarda, desde então, o dia a dia tem sido uma luta: “É um desafio constante e uma luta para conseguirmos ter uma vida, minimamente, humana”, sublinha.
O espaço "Longevidade: Centro para a Qualidade de Vida" é um local de amparo para quem tem demência, mas, também, para quem cuida dessas pessoas, como Eduarda. É um projeto das Obras Sociais de Viseu, situado na travessa dos Andrades, bem no coração da cidade. Abriu portas em setembro e é uma autêntica casa para as famílias. Há uma cozinha, um quarto, uma casa de banho e, até, uma sala de estar.
“Procurámos criar um espaço casa, em que as pessoas se sintam confortáveis”, explica José Carreira, presidente das Obras Sociais de Viseu e coordenador do Centro de Apoio a Pessoas com Alzheimer e Outras Demências (CAPAOD).
O projeto tem um objetivo muito simples: normalizar a vida das pessoas com demência e dos seus cuidadores. No hall de entrada há cadeirões cor rosa, um candeeiro, um televisor, um despertador, um telefone dos antigos, uma máquina de escrever e um baú. “Procurámos fugir a tudo aquilo que é o ambiente clínico”, acrescenta José Carreira. Cada sala tem uma cor: verde, laranja e cor-de-rosa. Os interruptores têm uma moldura de cor diferente da parede e na casa de banho há um espelho que pode ser tapado com uma cortina.
“É uma forma de as pessoas adaptarem as suas casas de banho. Não precisam de retirar os espelhos de casa, podem, simplesmente, tapá-los no caso de ser utilizado por pessoas que já não se reconhecem. Muitas vezes eles têm medo”, afirma José Carreira.
Passamos pelo jardim sensorial, onde ouvimos a água a correr: "É um espaço de relaxamento para os cuidadores e, ao mesmo tempo, permite fazer trabalhos de estimulação multissensorial ou cognitiva com pessoas com demência", explica o responsável.
As ferramentas necessárias para "viver um dia de cada vez"
No piso inferior, encontrámos o grupo de estimulação cognitiva reunido com a neuropsicóloga Emília Vergueiro. Nesta sessão, estimula-se o cérebro ao ritmo da música através do Método Ronnie Gardiner (RGM).
Do outro lado, o grupo de ajuda mútua junta-se às neuropsicólogas Sandrina Néri e Maria João Cardoso. Além de Eduarda Cunha, participam Dulce Pinto e Amélia Correia, também cuidadoras.
A mãe de Dulce Pinto, Virgínia Matos, de 83 anos, foi diagnosticada com Alzheimer em 2016. “É viver um dia de cada vez, em que nos ocupamos de alguém e isso requer muita paciência, trabalho e muito sacrifício. Deixamos de ter vida”, revela. Desde que frequenta as Obras Sociais de Viseu, há oito anos, que a mãe estabilizou a doença.
“As Obras Sociais de Viseu são a minha salvação. Aqui percebemos que não estamos sozinhos. Somos uma família”, sorri Dulce.
Amélia Correia é mulher de Fernando. É enfermeira de profissão e garante que, se não o fosse, seria muito mais difícil ter o marido em casa. Fernando sofreu, em 2020, uma encefalite herpética que lhe provocou graves lesões no cérebro. “Já aprendi a dar-lhe a volta, mas ele tem o seu tempo. Já toma banho e come sozinho. Eu aprendi a isolar-me. Preciso do meu tempo porque é muito cansativo”, confessa.
Naquelas duas horas em conversa, as três cuidadoras partilham sucessos, angústias e os desafios do dia a dia.
“O objetivo é não se sentirem sozinhas e que não assumam o sentimento de culpa pelo que não estão a conseguir fazer”, explica José Carreira.
No mesmo piso, há uma cozinha totalmente equipada e preparada para treinar os doentes para atividades da vida diária.
“A nossa grande preocupação é que as pessoas se possam manter autónomas na sua casa, mas, também, na comunidade. Isso requer treino e habituação”, afirma José Carreira.
Para isso, também é importante dar ferramentas aos cuidadores. “Não nos devemos substituir à pessoa com demência. Quanto mais fizermos pela pessoa, mais competências essa pessoa vai perdendo”, explica. Mas há técnicas que ajudam a facilitar a vida das pessoas.
A mesa está sempre posta, mas de uma forma diferente. Há um desenho no tampo que indica o local onde ficam o prato, os talheres, o copo e o guardanapo. “É um pormenor que faz a diferença. Para quem sofre de demência, a simples tarefa de pôr a mesa nem sempre é automática. Desta forma, a pessoa pode continuar, de forma autónoma, a colocar os objetos na mesa da forma correta", explica José Carreira.
No mesmo piso, há uma sala de estimulação sensorial, com vários equipamentos que despertam sensações nos doentes com demências. "Aqui podemos trabalhar a visão, a audição, o paladar, o tato, o olfato, mas, também, o relaxamento e o bem-estar que promovem muita qualidade de vida”, diz.
O principal fator de risco da demência é a idade, mas vão surgindo cada vez mais casos de diagnósticos precoces.
“Quanto mais precoce é o diagnóstico mais violenta e mais rápida é a degradação da pessoa”, explica José Carreira, que quer trabalhar cada vez mais na prevenção.