Segunda volta, e agora? A correlação de forças no "cenário mais difícil" para Luís Montenegro

António José Seguro e André Ventura vão disputar a segunda volta das presidenciais, no cenário que Luís Montenegro queria evitar. Pode mesmo o primeiro-ministro ficar de fora da campanha? 

João Nápoles
João Nápoles Editor-executivo
18 jan. 2026, 23:59

António José Seguro de perfil com uma bandeira de Portugal
Fotografia: Seguro foi o candidato mais votado da primeira volta (José Coelho/Lusa)

Os resultados deste domingo acabaram por confirmar o cenário mais vezes refletido na profusão de sondagens das últimas semanas e aquele que Luís Montenegro mais queria evitar. António José Seguro e André Ventura, candidatos mais votados, vão agora atrás dos cerca de 45% dos votos que lhes fugiram para outros candidatos na primeira volta.

Para o politólogo João Pacheco, este é, para Montenegro, “o cenário mais difícil”. Talvez por isso, o primeiro-ministro se tenha apressado a falar publicamente sobre o resultado, garantindo, “em nome do PSD”, que não emitirá nenhuma indicação de voto. Na sede nacional do partido, em Lisboa, depois de uma reunião da Comissão Permanente Nacional, Luís Montenegro afirmou que “o espaço político do PSD não estará representado na segunda volta” e que, por isso, “não estará também envolvido na campanha eleitoral”.

Esta era uma reação esperada por João Pacheco, que acredita que o primeiro-ministro só tomará posição “se for muito forçado a isso". "Poderá ser obrigado a dizer alguma coisa sobre as linhas vermelhas e recuperar esse argumento”, acrescenta o especialista em comunicação política. Para já, a tendência é refugiar-se no papel de governante, porque esta discussão vai inevitavelmente "marcar uma retórica parlamentar”, explica.

“O candidato André Ventura vai voltar ao Parlamento, o primeiro-ministro vai estar no Parlamento e vai levar com esta narrativa a cobrar, a colar os partidos do sistema de um lado e ele, que é antissistema, do outro”, refere João Pacheco. 

Não foi preciso esperar tanto. No discurso de vitória, na noite de domingo, André Ventura reforçou a base do que já vinha a explorar na campanha, chamando a si o epíteto de líder da direita: “a direita fragmentou-se como nunca e os portugueses deram-nos a nós a liderança dessa direita”. Agora aponta a uma luta expressa entre “o reformismo” e “a degradação do socialismo”. Num discurso em jeito de comício, aludiu a Sócrates, à política de portas abertas, degradação e corrupção.

Ventura desafiou toda a direita a agregar-se à sua candidatura mas, para João Pacheco, “não há grande dúvida sobre a naturalidade do apoio a um candidato de centro esquerda por parte de toda a AD”. O problema é o custo político de assumir uma posição. Apoiar Seguro, com um governo minoritário, era correr o risco de ter o país numa situação ingovernável.

A verdade é que, ao não tomar posição, Montenegro poderá deixar a descoberto o terreno de direita que Ventura quer capitalizar, explica João Pacheco ao Conta Lá.

António José Seguro foi muito mais subtil, na primeira reação aos resultados da primeira volta. Evitou falar diretamente de Montenegro ou Marques Mendes, falando para todos os “humanistas e democratas contra o extremismo e o ódio”. “Ele está a proteger-se nesta fase porque estrategicamente interessa. Mostrar que não é ameaça ao Governo nem o amigo do Partido Socialista. Mas isto é uma questão sobretudo tática, eleitoral, porque estamos a disputar uma eleição e ele é candidato. Isto é taticamente propositado e pensado para conseguir colher mais votos do que aqueles que o PS consegue”, explica João Pacheco.

O que dizem os outros candidatos

No discurso de assunção de derrota, Luís Marques Mendes também se afastou da contenda da segunda-volta, dizendo que “não é dono dos votos” dos eleitores que o escolheram. O mesmo aconteceu com João Cotrim de Figueiredo, que disse, sem rodeios, não recomendar votos. Esperava-se que Gouveia e Melo fosse mais claro que os adversários, mas o Almirante disse ser “precoce” manifestar opinião na noite das eleições.

À esquerda, não há dúvidas. António Filipe e Paulo Raimundo, candidato e secretário-geral do PCP, foram lestos a expressar a orientação em favor de Seguro. Catarina Martins também já disse que o seu voto na segunda volta será em Seguro e José Manuel Pureza, coordenador do Bloco de Esquerda, vai propor à Mesa Nacional do partido o apoio ao candidato mais votado na primeira volta. Jorge Pinto, do Livre, já o havia feito, em plena campanha.