Ilda Marques é a única mulher a manter viva a tradição da Olaria Pedrada de Nisa

Há quatro anos, Ilda Marques encontrou um novo rumo de vida. Aos 52 anos, é hoje a única mulher a seguir a tradição da Olaria Pedrada de Nisa, uma arte única no país.
Ana Rita Cristovão
Ana Rita Cristovão Jornalista
22 jan. 2026, 08:00

“Eu não tinha qualquer ligação a este tipo de artesanato, ninguém na minha família alguma vez fez artesanato e nunca me passou pela cabeça fazê-lo”, começa por clarificar Ilda Marques, em entrevista ao Conta Lá.

Natural de Portalegre, mas com morada assente em Nisa, antes de descobrir a arte da olaria os dias eram passados em "viagens intermináveis" entre o Alentejo e Lisboa, onde trabalhava como agente imobiliária. Com a pandemia, o mercado parou, as reuniões abrandaram e o tempo livre em casa começou a despertar a criatividade.

“A verdade é que o trabalho diário tira-nos o foco dos trabalhos manuais, das pinturas, e eu acabava por não ter praticamente nenhum tempo disponível. Após o confinamento, incomodava-me profundamente estar tanto tempo sem fazer nada e tive conhecimento de uma formação que ia abrir acerca da Olaria Pedrada de Nisa e inscrevi-me a título de curiosidade”, recorda a artesã.

Mas para poder dar asas à imaginação, havia um requisito: estar desempregada. Uma condição que não impediu Ilda Marques de arriscar.

“Qual não foi a minha surpresa … eu não podia estar a trabalhar. Era uma formação ministrada pelo IEFP para desempregados. Então em junho de 2022 arrisquei a 100% e despedi-me para me dedicar ao curso”, recorda.

Um risco que, quatro meses após o início da formação, se transformou em certeza. “Percebi que realmente era aquilo que queria fazer”, confessa ao Conta Lá. De diploma na mão e formada por um dos mais reconhecidos oleiros de Nisa, uma semana após o fim do curso Ilda Marques recebeu o convite para se juntar ao mestre.

“Fui uma privilegiada porque entre tantas pessoas que ensinou durante a vida, a tentar que alguém escolhesse seguir esta tradição, o mestre António Pequito convidou-me para ir para a olaria dele e ensinou-me tudo, de A a Z”, conta.

Ilda Marques e António Pequito, o mestre oleiro que formou a artesã e cuja memória foi eternizada pela aprendiz numa peça de barro

Ensinamentos que fazem hoje a diferença para conseguir manter viva uma tradição que corre risco de desaparecer. Numa arte milenar com grande expressão no Alentejo, na década de 60, eram cerca de uma dezena os mestres oleiros que davam forma ao barro e o transformavam na típica Olaria Pedrada de Nisa. Hoje, além de Ilda Marques, há apenas mais dois oleiros.

A exigência do trabalho, num ofício onde “temos que nos empenhar muitas horas por dia, inclusive até às 02h00 ou 03h00”, associada à imagem que perdura na região de que “o artesanato é para quem não tem instrução escolar”, levam ao desamor por uma arte que é também difícil pelo “constante mexer em barro e terra molhada e estarmos constantemente sujos”.

Num trabalho onde a paciência e o tempo são cruciais para um bom resultado, tudo começa com a preparação do barro, característico da região. Hoje, ao contrário de antigamente, Ilda compra o barro já amassado. 

“Peso-o, coloco na roda, começo a trabalhá-lo, depois passa por um primeiro período de secagem e começo a bordar o barro com o quartzo branco, característico de Nisa, vindo da Serra de São Miguel, que tem de ser previamente cozido, partido e separado por tamanhos”, explica a oleira ao Conta Lá.

É nesta fase do processo, o trabalhar do quartzo, que Ilda Marques assume outra grande responsabilidade: além de ser das últimas artesãs a dar vida à olaria de Nisa, é também das últimas pedradeiras, as responsáveis por decorar e embelezar as peças de barro produzidas pelos homens. 

É através da técnica de “empedrar”, encaixando pedaços de quartzo branco um a um nas peças de barro, que nascem os elementos decorativos únicos que dão o cunho tão identitário a este tipo de olaria.

“Depois de colocadas as pedras, a peça volta para secagem, é cozida a uma temperatura entre os 800ºC e os 900ºC e pode demorar horas”, continua Ilda Marques.

“Se for uma peça simples, pequena, demora cerca de um dia e meio, pode estar a secar até duas semanas, depois vai a cozer e estará pronta, mas se for uma peça mais elaborada, eu tenho aqui uma por exemplo que está em secagem há dois meses e ainda não está seca”, afirma.

Um processo moroso e minucioso e cuja autenticidade mereceu já uma nomeação às Sete Maravilhas da Cultura Popular e cuja candidatura a Património Imaterial da Humanidade tem vindo a ser estudada nos últimos anos pela autarquia.

Inicialmente, o aparecimento da Olaria Pedrada de Nisa surgiu como resposta a uma necessidade de preservar e transportar água. Bilhas, barris, cântaros e cantarinhas eram produzidos diariamente para ajudar as famílias que “não tinham água canalizada e usavam as peças de barro para levar água fresca para o campo” ou “para servir as estações de caminho, onde se vendiam pequenas bilhas para consumo de quem vinha no comboio”.

A Olaria Pedrada de Nisa surgiu inicialmente com um propósito utilitário, sobretudo para guardar a água fresca que se ia buscar à fonte

Com a evolução da sociedade e o aparecimento de água canalizada, as peças utilitárias perderam o papel que tinham e obrigaram a arte a reinventar-se. Foi aqui que Ilda Marques arriscou uma vez mais e se tornou pioneira no uso Olaria Pedrada de Nisa para decoração.

“Esta última geração de oleiros faz apenas e só peças utilitárias e eu, ao fim de meio ano na olaria do meu mestre, pedi autorização para criar. Ele permitiu-me e, no fundo, estava a preparar-me para o futuro”, conta a oleira ao Conta Lá.

“Havia peças que eu desenvolvia e que ele nunca tinha visto nada igual sequer, ia por tentativa/ erro até conseguir e fui percebendo que, como todo o artesanato, a olaria requer criatividade, inovação, arriscar para também haver uma satisfação pessoal – para mim essa satisfação só existe se estiver a criar – e, por outro lado, para tornar a atividade rentável e vantajosa”, confessa Ilda Marques.

Hoje, é no pequeno atelier improvisado em sua casa (depois de ter saído da olaria do seu mestre  após o falecimento do mesmo) que vai dando vida a peças únicas e diferenciadoras, mas mantendo sempre a tradição e o quartzo branco em cada detalhe.

“Presépios, imagens de santos, sobretudo o Santo António, candeeiros, luminárias, até amplificadores de som, faço tudo o que a minha criatividade me disser ou aquilo que os clientes pedirem”, enumera, destacando ainda as andorinhas que “têm uma procura enorme”.

Presépios, santos populares e andorinhas são algumas das principais produções de Ilda Marques

Adaptada aos tempos modernos, é precisamente através das vendas online que consegue ganhar clientes e ter uma agenda cheia, com“encomendas a que ainda não conseguiu dar resposta.

“Mas isto só acontece porque inovei, criei peças novas, dei nova vida a esta arte”, diz com o orgulho na voz, mas com a certeza de que “ainda preciso de muitos anos de prática e serei aluna a vida inteira”.

Num sinal de esperança para a continuidade da tradição da Olaria Pedrada de Nisa, Ilda Marques traça dois objetivos para o futuro: conseguir encontrar um lugar para instalar o seu atelier e abrir portas ao mundo e continuar a seguir as pisadas do seu mestre.

“Quero ensinar e preparar outras pessoas para esta arte, transmiti-la às novas gerações para que não se perca a tradição”, conclui.