Ferramenta de IA facilita acesso ao que é discutido nas reuniões dos municípios

Citilink recorre a IA para transformar as atas em informação estruturada, pesquisável por tema e por protagonistas. Pretende ser um mecanismo para aproximar os cidadãos das decisões do poder local e aumentar o escrutínio.
 
Ana Ribeiro Rodrigues
Ana Ribeiro Rodrigues Editora-executiva
19 jan. 2026, 16:00

Homem olha para computador portátil com a página do citylink aberta
Fotografia: Protótipo inclui dados de seis municípios, mas pode ser escalável

Tornar mais simples e acessível o acesso à informação sobre discussões e decisões nas câmaras municipais, aplicando modelos desenvolvidos por Inteligência Artificial, assim como aproximar os cidadãos do quotidiano do poder local e aumentar o escrutínio. É este o propósito do projeto CitiLink, que na quarta-feira, 21, apresenta na Covilhã o protótipo desenvolvido com a análise das atas de seis autarquias.

Através do processamento de linguagem natural, o projeto aplica tecnologias avançadas de cibersegurança, inteligência artificial e ciência de dados para analisar atas camarárias, processar essa informação e tornar mais eficiente e prática a sua consulta.

A ferramenta permite identificar participantes nas reuniões e a evolução das suas intervenções sobre determinado assunto, ver quem votou a favor, contra ou se absteve, acompanhar os temas debatidos ou pesquisar, por exemplo, em que sessão ou data determinada situação foi abordada e por quem.

Esta análise dos documentos sob o ponto de vista computacional também disponibiliza sumários de cada reunião, através de uma lista de assuntos abordados e uma síntese do que foi debatido. Essa seleção é inferida automaticamente pelo modelo e a informação é sinalizada como tal. Mas também é possível essa informação ser validada por algum técnico, que aumente a fiabilidade e dê maior garantia da relevância dos dados apresentados. Nesse caso, é dada a indicação de que existiu interferência humana no processo.

“Queremos garantir uma melhor qualidade da democracia. Neste caso, sob o ponto de vista do poder local. Tornar a informação mais transparente e acessível para o cidadão, aproximar o cidadão das decisões do município, daquilo que lhes é mais tangível”, explica o coordenador do CitiLink, Ricardo Campos, investigador do Instituto de Engenharia, Tecnologia e Ciência de Sistemas e Computadores INESC TEC e diretor do curso de Inteligência Artificial e Ciência de Dados na Universidade da Beira Interior (UBI), localizada na Covilhã.

No projeto, participaram os municípios do Porto, Guimarães, Covilhã, Fundão, Alandroal e Campo Maior, que cederam mais de 400 atas das reuniões camarárias entre 2021 e 2024, informação que vai ficar pesquisável no protótipo pelo público em geral. Estas autarquias ficam também com essa ferramenta funcional e, se introduzirem as atas atuais, as sessões podem ficar de imediato disponíveis para os cidadãos ou podem ser apenas utilizadas como um procedimento interno de que não dispunham.

Segundo o investigador, “as atas são densas, estão em formato PDF, são longas, são técnicas e são extremamente difíceis de processar por pessoas que regularmente não assistem a este tipo de reuniões”. O que foi feito foi facilitar a consulta, através de IA. Foram exploradas arquiteturas do domínio do processamento de linguagem natural, um subdomínio da IA, para treinar o modelo e tornar esses documentos administrativos legíveis e acessíveis aos cidadãos, afinando os dados para que sejam entendidas a semântica, o contexto ou a sintaxe de textos.

“A ideia é tornar a informação mais acessível à população. Na verdade, isto não é um sistema de gestão de informação, é um sistema de inteligência artificial que moderniza, de facto, mas, acima de tudo, facilita o acesso à informação”, acrescenta Ricardo Campos, em declarações ao Conta Lá.

Outra especificidade foi o desenvolvimento da capacidade de anonimização de dados pessoais desses documentos, ocultando informações como a morada de cidadãos que intervêm nas sessões, ou de dados privados que constam nos processos.

Existe também a possibilidade de os cidadãos receberem notificações no email, recebendo uma listagem de assuntos discutidos quando é carregada uma nova ata, bastando subscrever esse serviço.

Ricardo Campos salienta que esta é uma forma mais eficiente de acompanhar as deliberações municipais e considera que “um modelo destes pode ter um impacto significativo daqui para a frente, se adotado pelas câmaras”.

Embora o demonstrador tenha sido desenvolvido e testado com seis municípios, o coordenador do CitiLink sublinha o potencial para que possa ser escalável para outros fóruns, como Assembleias Municipais, o Governo, Assembleia da República, outras áreas da administração pública e também fora da política. “Eu gostaria de ver este projeto também ser aplicado em larga escala, desde logo começar por aplicar isto às restantes câmaras”, acentua o professor na UBI.

O CitiLink foi trabalhado durante dez meses e envolveu uma equipa de 25 pessoas de várias áreas. Para que possa ter continuidade e alargar o raio de ação, é necessário ter uma estrutura com outra dimensão e prosseguir a investigação, nomeadamente com os especialistas das ciências da computação, linguística computacional e ciências da comunicação, que estão a ajudar a afinar o protótipo e a treinar os modelos.

O investigador acentua que foi criado “algo completamente distinto e inovador, que não é trivial”, que atingiu mais do que tinha sido inicialmente proposto, que a pesquisa pode ser afinada e que é uma ferramenta aberta, “o que significa que qualquer  pessoa pode pegar nela, investigar e melhorar esses modelos”.

O CitiLink, investigação feita em parceria entre a UBI, o INES TEC e a Universidade do Porto, foi financiado em 125 mil euros pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência.

A apresentação dos resultados está marcada para quarta-feira, às 14:30, no auditório da Faculdade de Engenharias da UBI, com a presença de representantes dos vários parceiros envolvidos e convidados. Maria Manuel Leitão Marques, antiga ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, é a oradora da comunicação "Inteligência Artificial e participação cívica: mais riscos ou mais direitos?". O protótipo pode ser utilizado com os dados introduzidos, entre 2021 e 2024, a partir desta data, em citilink.inesctec.pt.